Veículos elétricos também poluem

Quarta, 23 de Maio de 2012

por Acabra .Net

Em tempos que pedem uma consciência mais ecológica, o veículo elétrico surge muitas vezes como uma alternativa. Todavia, o tipo de produção de energia elétrica e o preço de compra do veículo podem impedir o seu ressurgimento no quotidiano popular. Por Filipe Furtado e Paulo Sérgio Santos

Ao contrário do que possa parecer, o veículo elétrico não é novidade. “Entre 1890 e 1914 havia mais automóveis elétricos nos Estados Unidos da América e no Reino Unido do que automóveis com motor de combustão interna”, conta Victor Lobo, eletroquímico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Apesar do avanço tecnológico, a opção do veículo elétrico continua a apresentar mais contras do que prós em relação aos veículos com um motor de combustão interna, vulgo automóveis que consomem gasolina ou gasóleo.

A queda do líder do mercado

O declínio do veículo elétrico tem origem na década de 1910, com base em desenvolvimentos tecnológicos. Victor Lobo aponta várias razões, entre elas a melhoria da fiabilidade dos motores de combustão interna; o preço, com Henry Ford a colocar automóveis a gasolina a 440 dólares e o surgimento de novos pneumáticos.

A viragem na sua utilização coincide com o primeiro marco histórico do século XX, a Primeira Guerra Mundial. Os desenvolvimentos ao nível da mecânica automóvel, com fins bélicos, possibilitaram novas inovações como silenciadores e motores de arranque. Dessa forma, o veículo elétrico, que até aí era alvo de preferência nas classes mais abastadas, perdeu em relação ao seu concorrente no nível de ruído emitido e na sua escolha maioritária pelo sexo feminino, por não ser necessário pôr a trabalhar à manivela, o que originava muitos braços partidos.

A poluição e o preço

Tanto Victor Lobo como Pedro Marques, investigador do Departamento de Engenharia Mecânica da FCTUC, afirmam que as marcas de automóveis fazem propaganda a uma taxa zero de emissão de poluentes, o que não corresponde à verdade. “Não poluem localmente, mas onde se gerou eletricidade”, enfatiza o investigador, tendo em conta que a energia elétrica pode ser gerada através da queima de combustíveis fósseis, como o gás natural ou o carvão. Isto varia consoante o horário de carregamento dos veículos, conforme explica Pedro Marques. Durante a noite há menos consumo de energia e Portugal, nessa altura específica, produz um excesso de energia proveniente de fontes renováveis.

No Departamento de Engenharia Mecânica, avaliam-se padrões de utilização mistos, baseados não só na questão ambiental mas também na económica. Um dos grandes contras do veículo elétrico é o seu excessivo preço: “um veículo de 30 mil euros tem carros equivalentes que não chegam a custar 15 mil”, evidencia o investigador, que refere igualmente que na conjuntura atual as pessoas optam pela escolha mais barata, o automóvel convencional.

Outro dos problemas também relacionados com a componente financeira são as baterias utilizadas como fontes de armazenamento de energia. Cada conjunto de baterias ronda os dez mil euros, tendo, segundo dados fornecidos pelas marcas, uma autonomia de “100 mil quilómetros”, calcula Pedro Marques. Se se considerar um tempo de utilização para o veículo de dez anos e 200 mil quilómetros, perspetiva-se que sejam utilizados dois conjuntos de baterias. “Se pensarmos que um veículo custa 30 mil euros e as baterias dez, temos um preço final de 40 mil euros”, estima o investigador. Nem mesmo a opção, de algumas marcas, de uma espécie de aluguer de longa duração, que eliminaria o custo de aquisição de um novo conjunto de baterias, parece ser viável.

O problema das baterias não se esgota no seu custo, nem no seu tempo de vida. A sua própria tecnologia, ainda que em constante desenvolvimento, apresenta muitas limitações. Pedro Marques relata um teste feito a um veículo elétrico que põe em causa a sua fiabilidade, uma viagem entre Lisboa e Madrid que terminou com o veículo totalmente inutilizado.

É preciso fazer contas

Uma questão que passa despercebida ao público em geral é a ausência de ruído por parte destes veículos. Apesar de nota máxima na redução de poluição sonora, Pedro Marques questiona até que ponto não se estará a colocar em risco a segurança dos transeuntes. Victor Lobo levanta ainda outra questão crucial, a dos impostos associados aos combustíveis: “o preço da gasolina é de 50 a 60 cêntimos e estamos a pagar bem mais de um euro e meio. Se passássemos a ter só automóveis elétricos, o poder político colocaria os mesmos impostos na eletricidade”.

Atualmente vive-se um paradoxo. Com valores de aquisição de veículos elétricos residuais, apesar dos esforços do Governo em dotar o país de uma rede de postos de carregamento, não há grandes investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias. Pedro Marques aponta números e até interroga: “se tivermos em conta que produzir energia elétrica numa central a carvão tem uma eficiência de 40 por cento, e estamos a perder 60 por cento, mais as perdas de 8 a 10 por cento na rede de distribuição a baixas voltagens, o transformador da rede para o carregamento do carro, as perdas da bateria (apesar de ter uma eficiência de 90 por cento)… Se calhar a eficiência do veículo elétrico não é assim tão grande”. “Estamos a desviar-nos do problema e não a resolvê-lo”, conclui o investigador.