"Talvez Deus não se importe de que exista um “Adão e Steve”

Terça, 12 de Junho de 2012

por Acabra .Net

A homossexualidade animal é um dos objetos de estudo de Volker Sommer, professor de Antropologia Evolutiva na University College of London. Outros temas, como a real pertinência da defesa do ambiente ou a integração dos chimpanzés no género Homo trouxeram o investigador ao simpósio “Anthropology in the 21st Century: Challenges and New Directions”, organizado pelo Núcleo de Estudantes de Antropologia. E quanto à homossexualidade, talvez Deus nem exista para se importar. Por Filipe Furtado e Inês Amado da Silva

 
Disse que “Deus criou Adão e Eva, mas não criou Adão e Steve” (“God created Adam and Eve, but he didn’t created Adam and Steve”). É uma afirmação recorrente no seu trabalho. Poderia explicar um pouco melhor esta frase?
 
Cientificamente, sempre me interessei por comportamentos que não podem facilmente ser explicados pela teoria da evolução – como o infanticídio, a homossexualidade e como é que a evolução permitiu que esses comportamentos se desenvolvessem, uma vez que o objetivo da evolução é produzir descendência. Ou também comportamentos como a religião – pessoas a acreditar em coisas irracionais – ou as artes – pessoas a fazer coisas que não são produtivas. O meu trabalho nas potenciais explicações para os comportamentos homossexuais é para ser visto nesse contexto. Claro que quando dou palestras tento torná-las interessantes e acessíveis. Isto é só uma face dessa linha divertida. Nos EUA, o lobby é a oposição ao casamento gay, ou que a homossexualidade não é mais do que uma doença, dizendo “Deus criou Adão e Eva, mas não criou Adão e Steve”. Portanto, não é a minha opinião. Apenas uso isso como uma frase para ilustrar o puzzle da teoria da evolução. Depois digo: bem, talvez Deus tenha cometido um erro ou talvez Deus não se importe que exista um “Adão e Steve”.
 
Tem vindo a investigar o comportamento homossexual em animais, que descreve como “bastante comum”. Isto surpreende muita gente?
 
Estudar o comportamento sexual dos animais não é nada fácil, porque existem milhões de espécies animais e só sabemos como é que algumas se comportam. Tipicamente, as pessoas ficam surpreendidas ao saber que há algumas espécies animais em que a atração pelo mesmo sexo é comum. Há algumas em que é muito comum, e as pessoas perguntam-se naturalmente: são todos doidos? É porque estão em cativeiro? Ou só se enganam? O sexo pode também ser facilmente entendido como uma ferramenta social. É provavelmente agradável e os que têm relações sexuais ficarão melhores amigos, não importa se é entre um macho e uma fêmea ou entre duas fêmeas ou dois machos.
 
Socialmente falando, como funciona o comportamento homossexual nas sociedades animais? Há alguma semelhança entre os comportamentos humanos e animais quando se fala de discriminação?
 
Em regra, qualquer coisa que os humanos façam também se encontra nos outros animais, seja canibalismo ou ser simpático para os vizinhos, comer, masturbar-se ou beber o sangue de outros, tendo de se atentar se tem ou não a mesma função que nas sociedades humanas. Quanto à discriminação sexual entre animais há muito poucas evidências, exceto que, por vezes, vemos alguns animais acabar com interações sexuais entre animais homossexuais, particularmente entre os macacos. No entanto, isto acontece também nas interações heterossexuais. Acredito que o tipo de discriminação que se vê nas sociedades humanas não se vê nas sociedades animais.
 
Vê alguma causa para que isto aconteça?
 
Curiosamente, quando os tempos são mais liberais há mais homofobia. Porquê? Bem, se há uma ideia muito restrita do papel do homem e da mulher e do que cada um é e faz, toda a gente sabe o que é certo e errado. Mas se os tempos se tornam mais liberais, temos um problema com a nossa identidade: quem somos nós? Nas sociedades ocidentais, particularmente nos últimos 20, 30 anos, quando toda a gente fazia o que queria, sem problemas, acredito que a homofobia cresceu, porque fomos forçados a dizer o que somos: a sociedade já não está a dizê-lo por ti. Isso foi também o que aconteceu com as pessoas que tinham interações homossexuais: foram forçadas a dizer o que eram. Há pressão sobre as pessoas para dizer “sou gay, não há nada de errado com isto”. Não se pode não dizer nada, tem que se confessar. Se a sociedade fosse mais conservadora a pergunta não seria feita e, por essa razão, não existiria também discriminação aberta.
 
Pode dizer-se que os animais não julgam a orientação sexual?
 
Eu acredito que sim, mas ainda não conseguimos perceber. A questão seria: será que os outos animais também têm conceitos sobre como deveriam ser? Acredito que nas sociedades dos primatas e de outros animais, como os elefantes, existem conceitos sobre como se comportar corretamente. Mas a nossa pesquisa ainda não está concluída e não sabemos se isso se estende ao comportamento sexual. O que sabemos é que se estende, por exemplo, ao que se deve comer. Não sabemos se isto também se estende ao comportamento sexual. Quero fazer uma pesquisa exatamente sobre isso.
 
Vimos que em algumas apresentações fala da Grécia Antiga, quando era bastante normal a ocorrência de comportamentos homossexuais. Como vê a mudança da aceitação social destes comportamentos?
 
A palavra homossexualidade tem sido usada para interações muito diferentes e mentalidades diferentes. Será este o caso quando falamos de homens adultos que acariciavam os genitais de rapazes de 12 anos na Grécia, ritual que fazia parte do processo de educação? Isso é o mesmo que ter duas lésbicas em Nova Iorque a viver juntas, a ter uma relação e a adotar crianças. Há o famoso caso da população da Zâmbia, na Melanésia: quando os rapazes crescem têm de realizar um fellatio em homens adultos, o que significa beber o sémen – de outra forma, não se tornarão homens. Muitas pessoas dizem que todos estes exemplos são construções sociais muito específicas que a sociedade usa para construção de identidade. Se existisse uma solução única para como a sociedade devesse funcionar, tudo seria igual. Isto é sobretudo sobre criar uma identidade, para que os membros da sociedade tenham um sentimento de pertença. Acredito que a sexualidade é parte da nossa identidade social.
 
Como é que essa identidade evoluiu através da História?
 
Acredito que nós, nas nossas cabeças, gostamos de criar um sentimento de “eu” e de “tu”, de “nós” e de “eles”. Esta é uma classificação dicotómica do mundo e acredito que seguimos sempre isso, que gostamos de ter um “ingroup” e um “outgroup”. Como isso se cria, está dependente de como o fazes. Existem as coisas mais estranhas. Podes ter um deus que sai da campa três dias depois, deuses com quatro braços sentados numa flor de lótus. É completamente arbitrário, e esse é o ponto principal.
 
Falando do seu trabalho no The Gashaka Primate Project (projeto que mantém na Nigéria) e na sua tentativa de manter um meio natural para os primatas: já disse que podemos tentar manter tudo como está para os nossos netos, mas não algo que possa manter-se apesar dos nossos esforços, porque umas espécies morrem e outras emergem.
 
Como alguém que estuda animais, plantas, a natureza, sofro ao ver isto. No entanto, se pensar melhor como biólogo da evolução, percebo que podemos não estar a tentar preservar, mas todos sabemos que em 10, 20 ou 100 mil anos, tudo vai mudar de qualquer forma. A evolução é sobre mudança e é muito difícil argumentar sobre o dever de proteger porque irá mudar de qualquer forma. Talvez o façamos para nosso prazer, mas é tudo. Numa perspetiva mais alargada, não fará diferença. Também é preciso dizer que, agora, a destruição da natureza é trazida pelos humanos, como antes foi trazida pela natureza. Não está correto. E porque é que o nosso cérebro, que nos permite criar as máquinas e a tecnologia, não é parte da natureza? Também são parte dela. O que quero dizer é que a filosofia da conservação da natureza é difícil porque, na verdade, não é lógica. É uma questão complicada.
 
Um dos seus estudos aborda o tema de os chimpanzés passarem ao género Homo. Porque defende isto? Como encara as críticas vindas de outros cientistas?
 
Como está agora, há classificações zoológicas das pessoas, dos animais, das plantas. É uma convenção. Mas acontece que o Homem é o único membro do género Homo, todos os outros estão extintos – Homo erectus, Homo neanderthalensis, por exemplo – e depois há dissidentes noutros géneros, como o Pongidae, o que inclui os chimpanzés, os bonobos. Com o aumento de conhecimento no campo da genética, torna-se claro que, na verdade, os chimpanzés e os bonobos estão mais próximos dos humanos que estão dos gorilas. Quando Lineu fez a primeira classificação taxonómica incluiu todos estes tipos de criaturas no género Homo, incluindo também criaturas que agora são macacos. Na altura, foi forçado a pôr os humanos à parte, não podendo, de facto, encontrar nenhuma razão fisiológica ou anatómica. Então disse: bem, os humanos são diferentes porque têm uma mente. A descrição dos humanos é “reconhecer-se a si próprio”, e isso é, na verdade, o que está no oráculo grego de Delphi. A descrição para os humanos é que estamos aptos a reconhecer-nos a nós próprios, enquanto outros animais não o conseguem fazer.
 
Mas os chimpanzés conseguem…
 
E agora questionamos isso. Eles também conseguem reconhecer-se ao espelho, podem ter um autoconceito, pensar sobre si próprios… começa a não ser lógico manter o nome separado. Então deviam todos chamar-se Homo, mesmo os gorilas, e depois existiriam subespécies. O que se faz politicamente é outra questão, mas também tenho perseguido isto. É sobre estarmos a perder os nossos parentes mais próximos porque estamos a destruir o seu habitat. Aí voltamos à questão: isso importa?
 
Isto é sobre adquirir uma consciência de que somos animais como os outros?
 
Sim. Naturalmente, poderia ser a nossa identidade social: também sou um animal, estou ligado ao o resto do mundo, sinto-me ligado às outras criaturas. No entanto, por causa de sermos estes pensadores binários, que gostam de pensar neste “nós” e “eles”, também gostamos de deixar claro que somos o que somos porque há outros que são animais. E esse é o motivo pelo qual o fosso entre animais e humanos é tão profundo. Gostamos disso, porque nos dá identidade.
 
A ciência deveria pensar assim?
 
Cientificamente, isto é non sense. Mas, psicologicamente, isto ajuda-nos. Deveríamos estar mais atentos ao nosso mundo mental, também como produto da evolução, para perceber como classificamos o mundo, porque o fazemos, como agrupamos as coisas. Acredito que é uma questão científica muito pertinente

Atualizado às 16h00 de 13.06.12