Pela história dos trilhos naturais
Terça, 05 de Março de 2013
por Acabra .Net
Assolado pelo último temporal, o Jardim Botânico não perdeu a sua identidade. Caracterizado como uma dos mais emblemáticos espaços verdes da cidade, o jardim apresenta a sua essência na panóplia de espécies vindas de todo mundo e que os demais podem contemplar. Por Ana Morais e Joel Saraiva
Situado numa das principais e mais movimentadas artérias da cidade, na Alameda Júlio Henriques, está o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (UC). Embora a circulação de veículos seja constante por aqui, quem entra para o jardim sente e respira, de imediato, a calma e a pureza típica de um ambiente onde a natureza prevalece. No quadrado central, um dos espaços mais característicos do jardim, a atmosfera é envolvente: há pessoas que se estendem pelos bancos a ler, outras apenas como forma de escapar à rotina do dia-a-dia, e há também românticos a namorar.
O quadrado central, o “berço” do jardim, não teve sempre a disposição que hoje conhecemos. Apesar de a data de formação ser considerada pela própria equipa do jardim como “dúbia”, os primeiros registos datam de 1772. Ao início, este espaço estava ao dispor do estudo da ciência e da medicina. Ainda hoje, o Jardim mantém uma parceria para estudos medicinais com a Faculdade de Farmácia da UC. Contudo, a beleza do jardim começou por atrair pessoas, que utilizavam este espaço também para lazer. Com esta mudança, o quadrado foi sujeito a uma nova remodelação de forma totalmente geométrica. Um lado é exatamente simétrico ao outro, apesar de cada um dos lados representar espécies vindas do este e do oeste do planeta. Uma exceção à regra é o caso da Leguminosae, que conta com mais de 200 anos. A árvore centenária tem a particularidade de ser oca, no entanto, permanece viva e dá flor.
Ainda assim, a Metasequoia glyptostroboides e o Liriodendro são as espécies mais conhecidas do jardim. A primeira necessita de espaço e de água, o seu enorme porte faz com que as raízes cresçam a partir da copa da árvore para fixar o seu colossal tronco. As suas raízes expandem-se na horizontal e quando contactam outras árvores “abraçam-nas” até à sua asfixia total. Relativamente ao Liriodendro, esta floresce em maio, altura do ano antes marcada pela época de exames. É, assim, conhecida por árvore de ponto, sinal que o estudo deveria começar, já que os exames estavam próximos.
O temporal
Também o Jardim sofreu com o mau tempo que assolou o país no final de janeiro. 12 árvores foram derrubadas e uma das principais zonas afetadas foi o Jardim Garcia da Horta, com espécies de todo o mundo, vindas da Expo 98. O jardim foi mesmo encerrado ao público durante duas semanas para trabalhos de limpeza e intervenção. Entretanto já reabriu ao público ainda com duas áreas interditas.
Para mostrar a envolvência de quem por cá trabalha, uma história de emoções. Um dos jardineiros mais antigos do jardim ficou devastado com os estragos. A equipa constituída por cinco homens não tem qualquer formação específica de espécies exóticas (patentes nas estufas), ainda assim a mestria com que mexem nestas terras demonstram um conhecimento profundo do espaço.
Metas a atingir
Segundo o diretor do Jardim Botânico, Paulo Trincão, o espaço será submetido a uma nova reorganização de um conjunto de estruturas criadas anteriormente, apostando numa maior dinamização e divulgação. “Estamos a dar o contributo para que se atraia mais investigação científica feita sobre plantas do jardim”, esclarece o diretor como sendo um dos principais objetivos. “Transformar o conhecimento científico de forma a poder ser entendido pelas pessoas de uma maneira geral” é uma das metas a atingir, explica Paulo Trincão. Outra componente que está a ser estudada é a de cariz turística, visto que atualmente o Jardim não faz parte do circuito turístico da universidade. O que pode contribuir para uma melhor divulgação do jardim, bem como a mediação de atividades promovidas pelos agentes culturais da cidade. Por fim, o jardim está a ser financiado por um Quadro de Referência Estratégico Nacional com o fim da reabilitação das estufas, mobiliário urbano, reabilitação sinalética e ainda monitorização do CO2 e o H2O no Jardim. O diretor do espaço conta que em 2014 estas mudanças “estarão claramente visíveis”.
Os trilhos naturais chegam ao fim, mas a paz e a tranquilidade de quem respira um espaço verde bem no centro da cidade permanecem para quem o visite.







