O homem, a evolução a três níveis: físico, social e sexual
Terça, 12 de Fevereiro de 2013
por Acabra .Net
Na nossa espécie a evolução é tudo menos linear. Há determinados traços ou caracteres que se cruzam e, mediante as hipóteses, explicam à sua maneira o percurso humano na árvore evolutiva. O certo é que não é apenas da parte física que somos como somos atualmente. Por Paulo Sérgio Santos e Joel Saraiva
A evolução humana é um assunto sempre atual no cerne da comunidade científica. Um estudo recente publicado na revista “Biology Letters” aponta mais um facto explicativo acerca de caracteres existentes no nosso corpo com funções evolutivas. Segundo a pesquisa, os nossos dedos, após algum tempo submersos num meio líquido, ficam enrugados, o que pode explicar uma melhor capacidade de controlar objetos que se encontrem debaixo de água.
A pele enrugada apresenta uma estrutura similar aos pneus dos automóveis, isto é, a textura permite uma maior drenagem do líquido envolvente, facilitando assim a aderência, argumentando então a favor da teoria do macaco aquático. Esta hipótese postula que os nossos antepassados poderão ter passado por uma fase semiaquática, explicando ainda algumas características tais como a perda de pêlos corporais e o bipedismo. A docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa (ESELx), Cristina Cruz, começa por referir que os pêlos corporais “passaram a ser supérfluos, embora mantenhamos um conjunto de pilosidades que aparentam ter uma função específica, como é o caso das sobrancelhas, que nos permite impedir que o suor escorra para os olhos”. Olhando para os nossos antepassados, a diferença é notória. “A seleção evoluiu no sentido de ser mais vantajoso existirem estratégias de proteção do que propriamente a camada de pêlos que nos protegia”, explica Cristina Cruz.
A hipótese do macaco aquático não é a única que tenta aclarar a postura erecta, a passagem de um modo de locomoção quadrúpede para bípede. Cristina Cruz adianta que as justificações atuais prendem-se com “a libertação das mãos, permitindo o transporte de utensílios e o desenvolvimento da motricidade fina, o alargamento do tempo de gestação e o aumento da capacidade craniana e consequente complexificação das aptidões cognitivas”. O polegar oponível (capacidade de o referido dedo tocar em todos os restantes dedos da mão) tem uma ligação à motricidade fina e à capacidade de fabricar instrumentos, responsável pelo “surgimento de uma linguagem mais rudimentar. Existe uma relação entre a capacidade de motricidade e a zona do cérebro onde está localizada a linguagem”, explicita a docente da ESELx.
Em termos fisionómicos, a mudança de uma dieta herbívora para uma de génese carnívora/omnívora pode explicar a relação entre a diminuição do aparelho digestivo e o aumento do cérebro. “Uma dieta à base de frutos e folhas implica uma maior fermentação e um aparelho digestivo de maiores dimensões para fazer o processamento das fibras”, refere Cristina Cruz, o que justifica que uma dieta mais à base de carne, e consequentemente mais proteica, tenha contribuído para o aumento do tamanho do cérebro, o órgão do corpo humano que mais energia gasta.
Sexualmente social
“Nós somos um animal social”, inicia o docente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (DCV-FCTUC), Paulo Gama Mota. Portanto, nem só de evolução física é feito o percurso do homem ao longo de milhões de anos. Existem caracteres sociais e sexuais com funções marcadamente evolutivas. “A sociabilidade e vivência em grupo é uma característica herdada dos nossos antepassados primatas. Em termos biológicos a vivência em grupo tem vantagens no que diz respeito à proteção contra predadores, controlo de território e recursos, proteção contra rivais, etc. Nas sociedades humanas tem ainda a vantagem adicional de podermos usufruir da cooperação e entreajuda”, demonstra a docente da Universidade Nova de Lisboa (UNL), Cláudia Sousa.
A nossa própria evolução faz intersetar a evolução de diversas características, como a passagem do quadrupedismo para o bipedismo com o momento em que começa a prevalência da visão sobre o olfato, “quando afastámos a cara do chão”, afirma Cristina Cruz. O uso preferencial da visão permitiu que passássemos a “conseguir ver a uma grande distância e isso permite-nos não só detetar potenciais predadores como ver presas, encontrar alimento e ver indivíduos da nossa própria espécie”, acrescenta Paulo Gama Mota.
Doutorado pela Universidade de Nottingham, Keith Harrison, autor do livro “O Nosso Corpo – O Peixe que Evoluiu”, expõe outro facto curioso: a existência de mamilos nos homens. Cristina Cruz começa por demonstrar que “os cães também têm mamilos e não amamentam, é uma questão transversal”, para que se perceba a explicação de Keith Harrison, “talvez seja um facto surpreendente, mas todos os embriões iniciam o seu desenvolvimento no útero como embriões femininos”. É, depois, o início da produção de testosterona que vai diferenciar os fetos em femininos e masculinos e o evidente não desenvolvimento de seios nos homens.
A nível sexual, outra questão interessante é a da menopausa. “A mulher não pára de procriar tão cedo. A nossa esperança média de vida é que tem vindo a aumentar criando esse período pós-menopausa em que as mulheres já não podem produzir filhos”, sustenta Cláudia Sousa. Paulo Gama Mota refere a existência de outras teorias, como a hipótese da avó: “a menopausa evolui como forma de garantir que os avós pudessem cuidar dos netos e assim aumentar a qualidade dos cuidados parentais”.







