O cego era um vagabundo de fora da cidade e a quem ninguém conhecia casa nem família. Entrava ao acender-se a luz do dia, ia-se antes de os caminhos se tornarem solitários e perigosos. Não existia outro em toda a ilha. Vivia ao acaso da noite e do dia, morando algures, para além das últimas casas da avenida - após a curva que abria e fechava a entrada e a saída da cidade. Dormia onde calhasse, comendo do que lhe dessem: bocados de pão duro e algum conduto que guardava numa saca de lona. Vestia roupas que deixavam de servir, aceitava uma ou outra moeda. Quando nada lhe davam, comia do que encontrasse nos vazadouros dos quintais ou na lixeira a céu aberto da cidade. Um dia alguém teve a ideia de mandar uma brigada ver o que se passava com os pobres da ilha: um padrezinho de gestos suaves chamado Amadeu, a médica Florinda, a assistente social, o psicólogo, o técnico do município. Foi quando se detiveram à beira de um fojo: uma criatura, presa da sua incrível desumanidade, sentava-se no chão, ao lado de um cão que tremia de frio.
Ora, o particular deste cego estava no facto de o não parecer. Possuía uns olhos perfeitos, embora descrentes como os seus ombros descaídos. Olhos que escutavam o mundo e lhe devolviam o desencanto. A brigada ocupou-se do cego, levando-o ao hospital, onde foi desparasitado. Num exame sumário, a médica verificou que a cegueira parecia de somenos: uma cirurgia a raios laser, e recuperaria o que perdera na infância: a luz, as cores, a beleza e a fealdade das pessoas que até aí eram vozes que o saudavam à pressa; e a visão das ruas por onde os seus passos se orientavam pelo tato e pela memória.
Internaram o cego e guardaram o cão. Operaram-no. Ao retirarem-lhe a venda e os pensos, notou ele que o mundo se alargava em volta: os médicos e as enfermeiras já não eram vozes que se moviam, mas vultos iluminados ao passarem perto da janela, ao alcance da luz. Tudo nele se tornou grato a Deus e à cirurgiã. Nenhuma gratidão lhe parecia bastante para agradecer à sua redentora: pensou, lembrou-se do seu amigo, ofereceu-o à médica. Tratava-se de um belo animal: o guia perfeito, a doçura obediente à voz do dono. Ela levou-o para casa, passou-o aos cuidados do marido (que, cheio de ternura pelos olhos do animal, deu-lhe um banho quente, alimentou-o, comprou-lhe uma alcofa para ele dormir e pôs-lhe um nome a preceito: «Noël» - em homenagem ao espírito do Natal).
O cego recuperou a visão. Recolheram-no numa instituição de caridade, exibiram-no a quem o quis ver para que acreditassem no milagre. Encorajaram-no a ir pelas ruas, a passear, para que o povo visse essa obra de Deus e os prodígios da Medicina. Mas o cego verificou que não lhe era possível orientar-se numa cidade que ele só conhecia com os dedos, com o olfato, com a pele. Perdera a capacidade de “ver” à sua maneira: apalpando as esquinas para saber onde devia virar, contando os passos nos percursos rotineiros de outrora. Sentia-se num mundo estranho que o deprimia: um país estrangeiro para a sua linguagem, uma realidade irreal que desconhecia.
Imaginou uma maneira de se salvar dessa perdição. Fingir-se outra vez de cego! Foi a casa da médica, armou o seu banzé, exigiu-lhe que lhe devolvesse o cão. Havia em si um conflito de duas pessoas na penumbra em que a luz se fundia com a sombra, a alegria com o desespero e a fé com a descrença. Deprimido, deixou de comer e de dormir. Vieram as doenças. A mente parecia corroída por um sentimento de culpa que assumia o remorso como vontade de perdão. O pior é que o cego experimentou algo que sempre lhe fora desconhecido: a solidão. Não obstante a cegueira, nunca se sentira um sozinho na vida nem na cidade. Agora, descia de patamar em patamar dentro de si e afundava-se na melancolia. Decidiu pois voltar ao princípio. Passou a andar de olhos fechados. De cada vez que encontra um obstáculo, voltava a cerrar os olhos e recorria ao tato para se orientar no mundo antigo que lhe pertencia. Voltou-lhe a alegria. Limitava-se a seguir a voz interior que antigamente o levava para a frente de todos os perigos e aventuras e superava na sua alma cada obstáculo, cada novo desafio da cegueira. Não há melhor cego do que aquele que não quer ver.







