Novos desafios para a Antropologia

Domingo, 03 de Junho de 2012

por Filipe Furtado

Novos desafios dão o mote para o simpósio internacional Antropologia no século XXI, para refletir e analisar problemas que podem parecer simples, mas são muito mais complexos

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Christophe Heintz ensina alguns jogos matemáticos com membros do público Foto por Filipe Furtado

Pensar a Antropologia no século XXI é pensá-la nas suas diversas vertentes, seja a Antropologia Biológica, Médica, Evolutiva, Social ou até Económica. Temas como a obesidade, os cuidados médicos na maternidade ou comportamento pró-social apresentam-se complexos e indispensáveis para a compreensão do Homem na sociedade.

O Simpósio Internacional Anthropology In the 21st Century: Challenges and new directions, organizado pelo Núcleo de Estudantes de Antropologia da Associação Académica de Coimbra (NEA/AAC), abriu a sessão no Auditório da Reitoria com Amy McLennan, investigadora da Universidade de Oxford, num olhar mais “complexo” sobre a obesidade.

“Por que é que a obesidade é um problema?”, pergunta a investigadora. O que pode ser uma questão com uma resposta evidente pretende levar um pensamento mais alargado sobre as causas e implicações na sociedade. Pensar que o excesso de peso é simplesmente o resultado de comer mais e mexer menos é redutor, na ótica da investigadora australiana.

Os genes, o contexto social, económico, do ambiente, ou mesmo os media partilham influências na maior ou menor incidência deste flagelo do século XXI. Prova disso são os dados sobre os Estados Unidos da América, onde houve um crescimento da obesidade acentuado menos no estado do Colorado, onde "existem muitas universidades", melhor educação, um alto nível de impostos, e muitas práticas de skii e montanhismo”, esclarece a investigadora.

Amy McLennan faz ponte para um caso preocupante na República do Nauru, no meio do oceano pacífico. Um país que “até há pouco tinha a maior taxa de obesidade do mundo” e com uma média de vida de 50 e 60 anos para homens e mulheres, respetivamente, sublinha a antropóloga. Com o contacto com outras civilizações e num mundo globalizado ocorre uma perda de raízes e uma vontade de “viver para hoje”, com muitas festas, muitas idas a restaurantes.

Cumprimentar colegas primatas

Para falar de Antropologia Evolutiva sobe ao palanque Volker Sommer, docente da University College of London, que demonstra as parecenças entre humanos e primatas, e uma forma diferente de encarar as supostas singularidades do Homem.

“Começo sempre por cumprimentar os meus colegas primatas”, brinca Volker Sommer, afirmando sentir-se um orgulhoso primata. O antropólogo desmistifica algumas formas de pensamento “binárias”, em confrontação, a ideia do eu, do tu, do humano versus animal. No fundo, “estamos a reclamar um papel especial na natureza”, argumenta o especialista.

Volker Sommer há muitas vezes um reconhecimento de parecenças com os primatas a “nível de hardware”, a nível físico, mas ao nível do software, da utilização da inteligência, por exemplo, “somos mais cautelosos” na comparação, dado que isso afeta a nossa aceitação, afeta a construção da identidade humana.

As filmagens apresentadas tentam justificar essa linha de proximidade entre humanos e animais. Os chimpanzés chegam a usar ferramentas diferentes para poderem fazer refeições de forma mais eficaz, algo que até há pouco tempo pensava-se que apenas humanos conseguiam fazer. Se este exemplo não demove os céticos, a auto-medicação destes primatas já revela fortes evidências do uso da inteligência. Alguns primatas quando sofrem de diarreia, socorrem-se de folhas particulares que eliminam os parasitas do intestino.

Muitos chimpanzés também se enfeitam com colares, e mostram empatia, até conseguem salvar crianças humanas em risco. Volker Sommer defende que o género Homo do qual os humanos fazem parte deva incluir também os chimpanzés. “Somos obcecados pelas diferenças e não pelas semelhanças”, finaliza.

Maya Unnithan, docente na Universidade de Sussex, no Reino Unido, olha e descreve as relações entre cultura, comportamento, saúde e doença. Para além de pensar na forma como as pessoas expressam a doença, é necessário colocar a doença num contexto político e económico.

A investigadora identifica as formas de pressão social, de vontade individual, assim como políticas do estado em relação aos comportamentos de saúde na maternidade. O estudo começa com uma “contradição”, explica Maya Unnithan, ao afirmar que, por um lado, um maior número de filhos simboliza um maior estatuto social, ao mesmo tempo que o governo indiano pretende reduzir esses mesmos nascimentos devido ao excesso de população.

A relação entre a mulher e o marido, com a mulher e alguns amigos, ou a relação da mulher com a qualidade do tratamento recebido nos hospitais vai influenciar a sua postura em relação aos seus direitos reprodutivos e médicos.

Jogos de Económicos

“Serão as pessoas mais simpáticas em sociedades de mercado?” é a pergunta que Christophe Heintz deixa à audiência. O investigador de ciência cognitiva e economia põe à prova a racionalidade económica, a postura do "homo-economicus", isto é, “tomar decisões para maximizar os ganhos”.

Christophe Heintz ensina alguns jogos matemáticos com membros do público para demonstrar as preferências sociais: “em todas as culturas as pessoas são simpáticas. Numas podem dar mais, noutras menos”. Neste caso, os jogos podiam envolver dar ou recusar ofertas de dinheiro, ou contribuir para um mealheiro. Se as pessoas dão dinheiro a outros não estão a maximizar os ganhos materiais como seria suposto.

Então, por que razão os indivíduos dão dinheiro a outros, contribuem para o estado social ou recusam quando alguém lhes oferece dinheiro? Ora, como os indivíduos têm medo de ser observados, “interpretam os jogos como na vida quotidiana”, podem defender uma melhor distribuição dos recursos, podem sentir-se bem em agradar os outros, ocorre por um sentimento de justiça, ou pela forte reciprocidade – quando alguém é simpático, recebe simpatia. Essa atitude pró-social ocorre, porque, para além dos mecanismos biológicos que favorecem a boa reputação, o indivíduo tem uma “necessidade de preencher as expectativas dos outros”, conclui Christophe Heintz.