Laranjais do Mondego

Na sombra de um futuro amargo

Terça, 05 de Março de 2013

por Acabra .Net

Todos os invernos, o ciclo repete-se. Colher o fruto e vender. As margens verdes dos rios Ceira e Mondego pautam-se do cor-de-laranja dos citrinos da época. Das bermas da estrada às bancas do mercado repete-se a tradição de uma venda que já conheceu dias mais soalheiros. Por Rafaela Carvalho e Ana Morais

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Nas bermas da Estrada da Beira ainda se podem encontrar algumas vendedoras de laranjas Foto por Rafaela Carvalho

"Isto não é para futuro, é para não deixar estragar, e vem para a ajuda das sardinhas”, conta a vendedora Maria Corália Grande. A princípio, a banca parece abandonada, mas assim que sentem uma presença estranha os cães começam a ladrar e ouve-se o portão a ranger um pouco antes de se ver Corália a subir lentamente a pequena rua que separa a sua casa da estrada.

É durante os meses de inverno que nas bermas da Estrada da Beira se encontram as vendedoras de laranjas. São cerca de onze quilómetros entre a ponte da Portela e a aldeia de Segade que pintam de cor-de-laranja as geralmente verdes margens do Rio Ceira.

A lábia de vendedor contrasta com o desânimo de quem já faz isto há muitos anos, mas vê o negócio a definhar. “Antes era melhor do que agora, éramos muitos a vender mas tudo vendia”, relembra Corália. Também Silvina Santos Lopes invoca a crise para justificar o estado do negócio. “Há semanas que nem para ninguém”, desabafa. Depois de se reformar, montou banca à porta de casa para vender as próprias laranjas e laranjeiras. “Como estou em casa vendo eu o meu produto”, sustenta.

Nem dois metros ao lado está a sua mãe, Maria da Conceição Santos, com a mestria de uma vida. “Se a minha reforma estivesse melhor não estava aqui”, partilha a vendedora entre lágrimas.

Até porque para quem vende à beira da estrada, as fragilidades são constantes. Aliado ao frio dos meses de inverno, o perigo inerente de assaltos está  cada vez mais presente. “Se algum dia me assaltarem que dêem cabo de mim de uma vez”, deixa escapar Conceição, com desespero.

Sem tratamentos artificiais

Como a maioria da produção agrícola portuguesa, a cultura da laranja não escapou impune ao temporal que se abateu sobre território nacional no passado mês de janeiro. Maria Corália explica que “cada vez que vem uma cheia muito grande dá prejuízo às árvores”, o que tem sido constante nos últimos meses. “E se vier a geada acaba com o resto”, teme a proprietária apontando para o quintal adjacente à sua residência.

No entanto, nem oito nem oitenta. Se em alguns anos o problema é o excesso de chuva, nos outros é a falta dela. As laranjeiras de Silvina, em São Frutuoso, na encosta do Ceira, não têm sistema de regas, nem outros artifícios. “Só bebem a água que Deus Nosso Senhor manda. Quando não chove ficam torcidinhas”, explica.

Porém, apesar das dificuldades, as três vendedoras nunca procuraram o apoio do Estado para cobrir prejuízos ou alavancar o negócio. “Se fossemos viveiristas já tinha posto os pés a caminho e já tinha pedido a alguém que me ajudasse”, refere Silvina Lopes.

Todo o trabalho é  feito por “conta própria” explica Corália Grande, cujo marido zela pelas terras e pelos laranjais uma vez que não há mais ninguém para o fazer: “já não há quem trate”.

Quem vende pelo Mercado

Quando questionada sobre a possibilidade de vender no mercado, Silvina é perentória ao afirmar: “a minha idade também já não dá”. Por sua vez, Albertina de Jesus, desafiando os conselhos do próprio filho, ruma de Lordemão ao Mercado Municipal Dom Pedro V, em Coimbra, para vender as suas laranjas. “Venho pouco agora. Não querem que eu venha”, partilha. Albertina conta mesmo que no verão, o seu filho não lavra as terras para que ela não trabalhe.

Algumas bancas mais à frente, num mercado preenchido, encontra-se José Luís. Vindo de Sobral de Ceira, onde é proprietário há mais de 12 anos de cerca de sessenta laranjeiras, o vendedor não mostra muita motivação. “Fica bonito e gosto de ver. Mas não é que me compense muito”, confessa.

Albertina de Jesus encontra na qualidade das terras da bacia hidrográfica do Rio Mondego a justificação para a qualidade das laranjas. Opinião partilhada por José Luís: “os laranjais do Mondego tinham fama”. Mas, o vendedor não se inibe de críticas e vai mais longe. “A zona até à ponte da Portela podia estar melhor do que está, cheia de acácias que não dão nada. Podia dar laranjas”, desabafa ao acrescentar que “ninguém liga, só querem a fruta do Algarve”.

“Uns vão outros vêm”

Albertina de Jesus, Conceição Santos, Corália Grande, José Luís e Silvina Lopes, com idades entre os quarenta e os oitenta, herdaram dos pais esta prática. Todavia, mostram-se apreensivos. A falta de continuidade para o negócio da venda da laranja é encarada por todos como algo sem futuro.

Ainda assim, José Luís, do fulgor dos seus 44 anos, acalenta a esperança de algum dia encontrar alguém que abrace a tarefa. “Uns vão outros vêm”, enfatiza acrescentando que “pode ser que alguém mais tarde queira continuar”.

Por sua vez, apoiado na bengala o marido de Silvana, ao espreitar as vendas da mulher já não sorri ao olhar o futuro cada vez mais curto: “depois de eu morrer é pegar fogo àquilo tudo!”