Homenagem a Nuno Felício
Quarta, 20 de Fevereiro de 2013
por Acabra .Net
Aquando da sua passagem pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (2002-2006), no curso de Jornalismo, Nuno Felício passou pela Rádio Universidade de Coimbra (RUC) e pelo Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA. A direção do jornal presta assim uma última homenagem ao jornalista da Antena 1, falecido aos 38 anos, no dia 18 deste mês: uma recolha de textos de antigos colaboradores da RUC e d'A CABRA, realizada por João Pedro Campos, ex-diretor do jornal
Quase dois metros, óculos redondinhos e uma velha gabardina a fazer lembrar o Inspector Gadget. Pode parecer a descrição de uma personagem de banda desenhada, mas não era. Era o Felício. Era o tipo que entrava na Sexão e, com duas palavras, punha toda a gente a rir. Era o tipo que contagiava com o seu sentido de humor em qualquer momento, mesmo que esse momento fosse uma vigília por um colega que estava detido. Era o Felício dos relatos, o Felício dos ‘blogs’, o Felício do Sporting, mas também da Académica. O meu único colega de curso que me tratava por Aroso (sobrenome que é raro usar), e uma das pessoas que mais me fez rir ao longo do meu percurso universitário.
Estas palavras são poucas para o que o Felício significou para nós. Dado o convite da direcção d’A CABRA para escrevermos um texto de homenagem, rapidamente se chegou à conclusão que era impossível escrever “um” texto. Porque nem todos estes textos juntos dizem tudo o que este “bom gigante” era.
Um abraço Felício. Encontramo-nos na próxima viagem.
João Pedro Campos
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“Cristiano Ronaldo”. Era assim que o Felício me chamava quando eu ainda tinha borbulhas na cara. Anos depois cruzei-me com ele em trabalho – eu pelo Diário de Notícias, ele pela Antena 1 – na sede de campanha do Bloco de Esquerda em noite de autárquicas e para ele eu continuava a ser o “Cristiano” – talvez pela paixão que partilhávamos pelo Sporting. Ele ali estava sentado com a calma de sempre. Com a mesma calma de quando se sentou no estúdio 3 para ouvir a minha reportagem final de curso da Rádio Universidade de Coimbra (RUC) antes de eu a mostrar aos formadores (“Tem muita música para o meu gosto, e tens de dizer que Tunes é na Tunísia, que o ouvinte não é obrigado a sabê-lo”) ou quando parava para conversar em frente ao iMac Branco na “Sexão”. Estar ali na conversa – não comigo, mas com toda a gente – após passar a porta de vidro era uma pausa tão obrigatória como o 7 parar em Tovim. São estas as memórias que guardo dele. Não são estórias extraordinárias, nem especialmente engraçadas, mas têm um lugar especial na minha memória. Tal como o Felício.
Rui Pedro Antunes
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Caro Felício,
Ironicamente, hoje não ouvi as notícias na rádio logo pela manhã, hábito que tenho, por defeito de formação. Daí que, ao início da tarde e de mais uma jornada de trabalho, quando o telemóvel tocou, a alegria de colocar a conversa em dia e de saber as novidades, da parte de um amigo comum depressa se desvaneceu. O tom do outro lado da linha denunciou que alguma coisa estava mal e que aí vinha uma má notícia, tarefa banal para um jornalista. “O Nuno Felício morreu!” Assim rezavam as gordas. “Morreu? Estás a brincar?!” Eis a minha não resposta, a minha tentativa desesperada de ludibriar a evidência, esse murro violento no estômago que é a notícia da morte de alguém que nos é querido.
Caro Felício, decerto, fizeste muitos amigos por onde passaste. Na escola, na universidade e claro está ao longo da tua carreira profissional. A comprová-lo está a rede social a que sarcasticamente gostavas de chamar “cara-livro”. Tens o teu perfil inundado de mensagens. Sou mais um entre outros, mas aqui deixo o meu testemunho, se assim mo permites, a relembrar os bons velhos tempos de Coimbra.
Sim, esses velhos tempos que agora me parecem ainda mais distantes, mas que ainda hoje me fizeram sorrir ao recordar-me de tantas peripécias por que passámos. Sim, um sorriso, porque lembrar-te tem essa marca, a marca da jovialidade, da fina ironia, do jocoso, de uma criança gigante no meio de pequenos homens.
Recordo o dia em que te conheci, íamos ter uma aula com o Rei Leão de Geografia. Caloiro como era, fui dos poucos a comparecer cedo junto do auditório do 3º piso da Faculdade de Letras, quando lá apareceste a perguntar se era ali que haveria a aula de Geografia Política para os alunos de Jornalismo. Impressionou-me a tua estatura. Habituado que estou a olhar para os outros de cima para baixo, contigo passei a compreender os outros que olham para mim, isto é, de baixo para cima. Caso único meu amigo e logo aí já fizeste a diferença e ganhaste a minha afeição.
Recordo os nossos passeios primaveris após um intenso dia de aulas, principalmente a de Registos Orais e Escritos com a [Professora Ana Teresa] Peixinho porque as outras não eram tão intensas, desde a alta até à baixinha onde dávamos as graças à estatura que o Senhor nos deu para podermos avaliar com olho clínico as airosas e frescas moças de Coimbra. Também gostávamos de dar as graças ao Senhor… Cozinheiro sempre que almoçávamos ou jantávamos nos grelhados o que deixava os nossos colegas em suspense se iríamos ou não rezar antes das refeições.
Recordo o teu sarcasmo, quando um nosso colega conhecido como o “Rod Stewart” ou antes o “Sanguinário de Eiras” epítetos da tua autoria obteve como nota um mísero dois na pauta. Nunca me esqueço do teu sorrisinho aniquilador ao te aproximares dele. Disparaste certeiro e fatalmente, dando-lhe duas palmadas nas costas, uma por cada valor e dizendo-lhe: “Eis o homem…”
Caro Felício, hoje a saudade aperta e aperta mais, porque ficará para sempre adiado o nosso reencontro, pelo menos aqui na vida terrena. Tenho a certeza que te encontrarei um dia noutro sítio, esse aí onde já estás.
A saudade de trautear as nossas adaptações de alguns temas de sucesso, consoante o caricato com que nos deparássemos e então pintávamos numa tela em branco, logo ali uma rábula qualquer. Grandes Hits como o “Metal Smile”, dedicado a todas as moças que são ou já foram um sorriso metálico. “Popless” dos GNR, a música dos nossos passeios atrás descritos, mas acima de todos eles, “Pisca, Pisca” de Ruth Marlene. Música dedicada ao Bacalhau Seco, esse banquete do povo que gingava, como ninguém, o verbo tingar à esquerda e à direita!
Caro Felício, juntos criámos a famosa e ainda hoje misteriosa, para todos os nossos colegas, Pró-secção cultural a AMIGA DE HISTÒRIA. Esse Graal bracarense, cuja demanda agora fica entregue somente a mim, já que partiste sem concluir a tua missão. Juntos escrevinhámos a CARTILHA DOLBETIANA, que revolucionou o mundo dos relatos futebolísticos radiofónicos. Juntos ironizámos vezes sem conta com as derrotas dos lampiões e entristecemos com as derrotas do Sporting. O teu Sporting, essa paixão de uma vida, que ironicamente no meio de tantas derrotas, viste pela última vez na tua vida sacar uma vitória.
Caro Felício, hoje calaste a tua voz, talhada genialmente para a rádio e perante a notícia da tua morte só me ocorre acabar dizendo a tua frase favorita da cartilha dolbetiana, que este dia se tornou:
FRAQUINHO, FRAQUINHO, MAU, PÉSSIMO… UMA NÁUSEA!
Descansa em Paz e Até Sempre,
Dinarte Melim Velosa
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O Said Zavad.
Esse rapaz baixinho que muitos conhecem como Nuno Felício, apareceu-me à frente em 2002, quando ambos entrámos em Jornalismo.
Era o mais velho da pandilha e o mais alto.
Tinha um aspecto de Wally que largara a fatiota de riscas vermelhas e brancas e uma voz que se pode considerar "do catano".
A voz dele era tão brutal que ele poderia dizer impropérios a uma jovem e ela iria sorrir e quase agradecer.
Era um tipo com um humor negro e sacana, tenho a certeza que foi por isso que eu gostei do estilo dele.
Lembro-te de ter chegado a uma pauta de Sociologia Geral e, perante uma nota infeliz de um colega e ao ver o rapaz aproximar-se no corredor, diz-lhe "2? Ninguém tira 2 a Sociologia pá!".
Ele tinha uma forma terna de ser violento. Talvez pela voz, talvez por ser mais velho, talvez por ser mais alto, ele dava-se ao luxo de não filtrar o que dizia e ninguém ficava ofendido.
Fiquei surpreendido quando, pela primeira vez, vi o nome completo do rapaz numa pauta. "Said Zavad? És taliban?", perguntei eu. Respondeu-me que era libanês. Até nisso, o sacana!
Era um tipo diferente... Recatado mas não daquele tipo introvertido.
Além de entrarmos ao mesmo tempo em Jornalismo, decidimos fazer os testes para entrar na RUC no mesmo ano.
Entrámos, fizemos a formação juntos, fizemos o "estágio" juntos e passámos várias horas na RUC na pura galhofa.
Também foi na mesma altura que o João Quaresma nos perguntou se queríamos fazer parte da equipa dos relatos. No antigo estúdio 3, o Quaresma aparece com um vídeo debaixo do braço e uma cassete de um jogo.
Experimentámos relatar e, ao fim de uns minutos, diz-nos que não havia dúvidas: o Nuno ia relatar e eu ia fazer pista.
O que eu sei é que fomos os dois fazer o primeiro teste. Chegámos a Alvalade numa noite fria de Novembro (dia 27, segundo o Google), íamos relatar em off o Sporting – Gençlerbirligi (o Gençler, como o Nuno dizia), a contar para a Taça UEFA.
Quando fui retirado do relvado por um responsável da UEFA, disse ao Nuno "olha! fui o único repórter a estar atrás da baliza neste jogo!". Ele respondeu: "És mesmo parolo! Não sabias? Eu também não...".
Depois disso fizemos a estreia na Mata Real, num Paços de Ferreira X Académica (diz-me o Google que foi dia 21 de Dezembro). Não sei quanto ficou, a única coisa que ficou gravada na minha memória foi o Nuno a entrar na zona de imprensa, um sótão incrivelmente baixo.
Quando entrei ia partindo a cabeça e comecei a rir. O Diogo Lucas Pires, já experiente e conhecedor do estádio, perguntou-me de que ria se quase parti a cabeça. Respondi-lhe que não conseguia parar de imaginar o Nuno a entrar ali.
E realmente foi uma cena hilariante. Os 2 metros do Nuno num sótão com pouco mais de 1metro de altura só davam mesmo para rir.
Tivemos momentos incríveis, recordo os 5 golos da Briosa no Restelo, com o Diogo Lucas Pires a tentar controlar um trio que falava de tudo menos do jogo e conseguia fazer piadas a partir de um pingo de chuva. Era perigoso quando conseguia estar na pista com o Nuno a relatar "lá em cima" e o Avelino Américo no estúdio.
A frase chave dele era “o jogo está fraquinho, fraquinho, mau, péssimo, uma náusea!”.
Sei que acabámos por nos separar quando fomos estagiar. O Nuno escolheu rádio, eu escolhi televisão. Os dois em Lisboa, de vez em quando lá fazíamos a promessa de "temos que marcar alguma coisa pá!".
E calhou que o ponto de encontro fosse a porta da PJ, durante a confusão toda da Universidade Moderna. Cheguei era quase meia-noite e o Nuno diz-me: "agora é que vens? Eu vou embora à uma!".
Só sei que ficámos na conversa até às 4h da madrugada. Falámos das aventuras dos relatos principalmente. Estava lá uma personagem da RTP, um tal de Fialho, de rabo-de-cavalo e cabelo grisalho, com quem dissertámos acerca do CAGA, o Clube de Amigos do Gabriel Alves.
Ainda me cruzei com ele na RUC quando ele avisava que ia dar formação às novas fornadas de malta da informação, mas essencialmente valeu-nos o Facebook para manter as sempre disparatadas conversas.
Liguei-lhe em Abril de 2012. Desafiei-o para fazer o relato da Académica em Alvalade comigo e pedi-lhe para perguntar aos "patrões" se havia problema. No dia seguinte confirmou-me que iria mas que estava enferrujado.
30 de Abril. Foi o dia em que relatei pela última vez com o Nuno. O Said Zavad fez o primeiro relato comigo e fez o último também.
Nunca pensei.
Era sempre garantido que seria um grande relato quando tinha o Nuno "lá em cima".
Sei que muitas pessoas acreditam que ele foi "lá para cima", ou que "foi para um lugar melhor".
Eu sei e garanto que o Nuno estava muito bem e muito melhor entre nós.
Também sei que tive a felicidade de conviver com ele e de o ter como amigo e companheiro de várias lutas.
A tristeza que sinto por pensar que não o vou ver mais é abafada por todas as recordações que tenho do Felício.
Como disse a uma amiga de infância do Nuno, não dou os pêsames a ninguém, apenas os parabéns por o terem conhecido.
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Filipe Sousa
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"A vida, meu caro, é ilegível. Acontece
e desaparece. Não há inteligência
que a descodifique: vem em linguagem-nada,
surge no corpo como surge o dia, e como
se dia e vida individual fossem materiais paralelos.
A vida não surge em prosa
nem em poesia — e a existência não fala
inglês, apesar de tudo. A natureza dos acontecimentos
resiste às invasões matreiras da publicidade e
dos filmes. Já não é mau."
Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"
Não viveu em ti a memória que guardo, tenho a certeza. Era-te natural, estava-te debaixo da pele ser assim: uma pausa no tempo para sorrir. Fazia anos e não sabia que não estava feliz. Tu sabias. A tua existência mais do que falar todas as línguas – até as que não existem -, ouvia. Lia nas entrelinhas dos dias. Era uma linguagem-tudo. Não falávamos muito e já não falávamos há mais – os diálogos nas alturas tinham de aguardar por uma cadeira qualquer. Tu rias-te disso; eu também. Era-nos natural, estava-nos debaixo da pele. Não viveu em ti esta memória que guardo, tenho a certeza. Não viveu, nem precisava de ter vivido – toda a perfeição do mundo foi solidificada por esse pensamento que tão sabiamente deixaste esquivar-se através da tua tão nossa voz. Não surgiu em prosa, nem em poesia, mas tornou-te eterno no que sou e tu nem sabias disso. Um dia, conto-te o que me disseste. Um dia, quando for a ave que querias ser para poder tocar o céu. Até sempre, meu caro.
Marta Poiares
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Não é por curiosidade, não é por ter à vontade, nem especial dom pelas relações sociais. Quem chega ao Instituto de Estudos Jornalísticos da Universidade de Coimbra, ainda não é jornalista, nem chegará a sê-lo verdadeiramente. É noutra casa que, inevitavelmente, os aspirantes de cada “fornada” cruzam-se, misturam-se, partilham-se, ligam-se. São todos filhos de uma grande Cabra. Sairão todos carimbados numa orelha com o mesmo selo de qualidade garantida, seguirão o seu caminho, e, muitas, muitas vezes, a ironia do destino voltará a cruzá-los, esses filhos de uma grande Cabra, agradecidos mas infiéis.
Ao Felício, cruzá-lo-ia, inevitavelmente, na redacção da Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra e nos corredores da RUC. Não me lembro de o ver sem um sorriso estampado na boca e nos olhos. O nome assenta-lhe que nem uma luva, pensei. Depois vinha a piada. Política ou non sense, mas irónica e sempre certeira. Parecia feita para irritar. Percebi, após várias, que afinal era feita para pensar e reagir. Se o Felício tivesse nascido na altura do 25 de Abril, pensei, era gajo para fazer a revolução com as palavras mais belas que houvesse. Ao ouvir a sua voz na emissão da RUC, serenei. Sem dúvida, estava aqui um grande radialista, contador de histórias e observador do mundo lá das suas alturas. Ouvi-lo mais tarde na Antena 1, não me surpreendia pelo talento que tinha, mas porque eh pa! Era o Felício! Tal como reajo sempre quando ouço, leio e vejo todos esses filhos de uma grande Cabra por aí fora. O Felício tinha um selo de qualidade garantida em cada orelha e quis a ironia do destino, injustamente, não dar hipótese de voltar a cruzar esse filho de uma grande Cabra de pai RUC, por deixá-lo partir demasiado cedo. Até sempre Nuno Felício.
Sandra Pereira
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A utopia morreu, dizias tu num vídeo que fizeste no ano passado e publicaste no YouTube. Eu digo-te que não, que a utopia nunca morre. Tal como nunca morrem os grandes homens – e não estou a falar de tamanho, mas de grandeza interior. Os grandes homens, como tu, permanecem sempre dentro daqueles que partilharam pedaços da vida com eles. Conheci-te há quase dez anos, no primeiro dia de faculdade.
Depois os nossos caminhos continuaram a juntar-se n’ A Cabra, na RUC, nos corredores da Associação Académica de Coimbra, e até nas viagens de autocarro do Bairro Norton de Matos para a Alta. Sempre com um “metal smile”, como te deves lembrar. Mais tarde, na redacção da Antena1, já em Lisboa. De todas as vivências em comum nestes vários espaços vou guardar muitas recordações, em particular o teu sentido de humor refinado e a forma particular como te levava a ler o mundo. Volto a dizer-te: a utopia nunca morre. E a minha utopia leva-me a dizer que nunca vais morrer.
Sandra Henriques
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O Nuno Felício protagonizou alguns dos momentos mais marcantes que vivi nos tempos de estudante em Coimbra, e particularmente no jornal A CABRA. Por norma, depois das reuniões plenárias, era quase impossível abandonar a secção de Jornalismo, a nossa “verdadeira” casa. Por lá ficávamos horas a fio, a conviver. Recordo o Felício, nesses dias, sempre com um pé entre a RUC e o nosso jornal A CABRA. Recordo a sua vontade em estar perto dos amigos e colegas. Recordo os seus dois metros de altura, que à primeira vista o tornavam num gigante intimidante. Não era nada disso. Era uma pessoa acessível, divertida. Obrigada, Felício, pelas brincadeiras em que alinhaste e risos que partilhámos na AAC. A tua partida absurdamente antecipada é muito triste. Jamais serás esquecido.
Paula Monteiro
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Era uma peça sobre os incêndios que destruíram grande parte da zona envolvente da cidade de Coimbra. Estávamos em 2005, eu verdinha na Rádio Universidade de Coimbra ele já gigante no tamanho e na exigência. Acabámos o noticiário e ele tirou a máscara: avaliou o meu trabalho, como fazia com todos os formandos, brincou com o meu nervosismo parvo (gozou é a palavra certa) mas garantiu-me que o meu futuro passava por ali.
Há duas semanas voltámos a falar a propósito do meu primeiro directo em televisão. Voltou a troçar dos meus nervos: "Até ficaste azul!", disse-me.
Ele era assim, provocador, divertido, sarcástico, inteligente, profissional, detentor de uma voz única e de uma habilidade rara para a escrita.
Convivemos muito pouco depois dos tempos da Ru(... Tenho pena, mas sei que seguíamos o trabalho um do outro e dos restantes colegas de curso com o mesmo orgulho. É uma das lições de Coimbra que ele soube passar e manter ao longo do tempo com quem se foi cruzando. Obrigada, Felício. Teríamos todos muito a aprender ainda.
Tânia Mateus







