Expresso promove debate sobre saúde em Coimbra
Segunda, 04 de Fevereiro de 2013
por João Valadão
“Saúde e Segurança Social: o Estado pode continuar a tratar de nós?” foi a segunda de onze conferências que se inserem na comemoração dos 40 anos do jornal “Expresso”. Com um grupo distinto de convidados do ramo da saúde, discutiu-se a sustentabilidade do Estado social nesta área
O evento começou com a visualização de um vídeo retrospetivo, que resumiu o percurso do semanário na história portuguesa, desde a sua fundação até aos dias de hoje. Posteriormente, Francisco Pinto Balsemão começou por alertar para a necessidade do jornalismo na sociedade moderna e esclareceu que as conferências “inserem-se num serviço à comunidade”, em que o objetivo é “embrulhar temas num título mais provocador”.
Fernando Ribeiro Mendes, o primeiro orador a ter a palavra, sustenta que a necessidade de trabalhar até mais tarde será uma realidade em 2015. O professor adianta que o país precisa de “uma transição entre os atuais regimes sociais para outros que garantam a sustentabilidade do Estado social” e que essa “não irá ser sem dor”. Fernando Ribeiro Mendes lembra também a complexidade dos problemas da longevidade e defende que é preciso “distribuir encargos pelas famílias”.
Já Pedro Ferreira lamenta que em Portugal se tenha “o pior dos dois mundos” e que este seja “um país desmoralizado”. O professor critica “um Estado muito pouco preocupado com os cidadãos, com pouco conhecimento e empreendedorismo” e sustenta que ninguém deve deixar de aceder aos serviços de saúde por razões financeiras.
Por sua vez, António Correia de Campos apresentou um conjunto de medidas que visam o aperfeiçoamento do Estado social. O ex-Ministro da Saúde propôs a eliminação dos interesses entre a prática pública e privada, a criação de uma prática clínica única e uma maior proximidade do cidadão aos serviços municipais de saúde. Para evitar um uso excessivo e desnecessário do Serviço Nacional de Saúde (SNS), António Correia de Campos propõe a criação de uma fatura virtual após o serviço médico, para que “este fique a saber quanto o Estado gastou”.
O alerta para a escassez
Manuel Antunes foi mais severo na responsabilidade a atribuir aos utentes e esclarece que os portugueses “não podem pedir tudo” e que o que é dado “nunca é aceite e poucas vezes agradecido”. O professor catedrático da Universidade de Coimbra alerta que muito pouco se faz para informar o cidadão, que não tem a noção do custo do SNS, e que “é preciso dizer, 24 horas por dia, aos portugueses, que não há dinheiro”. Manuel Antunes valorizou também que os cidadãos devem ter hábitos saudáveis, de modo a evitar as doenças e o uso dos serviços de saúde.
O Bastonário da Ordem dos Médicos, desvalorizou a última medida, ao realçar que a grande despesa do utente se dá no final da vida. “O verdadeiro custo não é no envelhecimento, mas sim nos últimos dois anos [de vida]”. José Manuel Silva foi, durante toda a sua intervenção, o orador que mais defendeu o atual sistema de saúde, que considera “de excelência”. O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) acredita que Portugal tem um défice de exigência na maneira como gere os seus recursos e que o Estado tem de os gerir de acordo com as exigências dos portugueses.
A defesa do SNS português
“O SNS é sustentável e é barato comparado com o custo médio da OCDE”, adianta ainda José Manuel Silva. Para o Bastonário, os cortes na saúde resultam de decisões macroeconómicas, em que as pessoas não são devidamente esclarecidas. Numa intervenção onde se alongou na temática da diminuição do financiamento, José Manuel Silva alertou que “os cortes em saúde podem, paradoxalmente, aumentar as despesas de saúde”.
O médico explana também que “utilizar o racionamento num país cheio de desperdícios é antiético”. Financiar o custo real do serviço médico, garantir um equilíbrio entre serviços sobre financiados e subfinanciados e permitir a concorrência entre o sector público são outros mecanismos apresentados por José Manuel Silva.
Moderada pelo fundador do semanário “Expresso” e presidente do grupo Impresa, Francisco Pinto Balsemão, a conferência contou com a presença de várias personalidades, entre elas: o professor e diretor do Centro de Cirurgia Cardiotorácica da Universidade de Coimbra, Manuel Antunes, o ex-ministro da Saúde, António Correia de Campos, o diretor do Centro de Estudos e Investigação em Saúde, Pedro Ferreira, o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão e ex-Secretário da Segurança Social, Fernando Ribeiro Mendes e o professor da FMUC e Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva.
A conferência inseriu-se nas comemorações dos 40 anos do jornal “Expresso”, num conjunto de onze eventos. As conferências abordam diversos temas como a demografia, a educação ou os recursos naturais e acontecem em diversas capitais de distrito portuguesas.







