Cafeína pode vir a ajudar crianças com hiperactividade e défice de atenção

Terça, 12 de Junho de 2012

por Acabra .Net

Resultados obtidos por uma equipa de investigadores da UC, liderada por Rodrigo Cunha, evidenciam que a cafeína pode vir a retardar o aparecimento de sintomas ligados a determinadas doenças do foro psiquiátrico. Após estudos em modelos animais, é necessário passar à fase seguinte. Por Paulo Sérgio Santos

A cafeína é um composto químico encontrado em inúmeras espécies vegetais, onde tem uma função diferente daquela que se começa agora a conhecer no organismo humano. Nos últimos anos, através do aumento da pesquisa em doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson, uma equipa da Universidade de Coimbra (UC), liderada por Rodrigo Cunha, descobriu que o consumo crónico de doses moderadas da substância normaliza o funcionamento de circuitos neuronais. “Pareceu-nos pertinente estender este conceito de normalização funcional para o caso de doenças do foro psiquiátrico”, declara o investigador. O objectivo é normalizar os circuitos neuronais, ligados ao controlo da atenção, essenciais em situações de crianças com hiperactividade e défice de atenção.

O grupo de investigação, inserido no Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC), pretende agora iniciar os estudos clínicos em crianças, depois de uma fase de pesquisa em modelos animais, ao longo dos últimos três anos. “Em 2009 foi feito o primeiro pedido para lançar um estudo clínico em crianças com défice de atenção e hiperactividade”, esclarece Rodrigo Cunha. Pedido esse recusado, para que se aprofundassem os estudos em modelos animais, e que será novamente pedido agora. Contudo, está dependente da obtenção de financiamento, uma vez que “a cafeína, por ser de livre acesso, é um fármaco muito pouco apetecível para ser patrocinado pela indústria farmacêutica”, demonstra o também docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). Em termos químicos, o tratamento mais comum a nível mundial é a prescrição de estimulantes à base de metilfenidato, mais conhecidos como ritalina.

Historicamente, existe um estudo piloto feito no Canadá, em 1975, que sugeriu um benefício resultante do consumo de cafeína em 20 crianças. Contudo, “a utilização de uma estratégia terapêutica só é efectivamente segura se, para além de aferir que funciona, se defina como funciona”, refere Rodrigo Cunha. Para isso servem os estudos animais já efectuados e os estudos clínicos que se pretendem realizar, igualmente imprescindíveis “para avaliar a razão custo/benefício de qualquer proposta de intervenção”, salienta o investigador do CNC.

Investigações futuras e outros estudos

As conclusões entretanto atingidas mostram que a cafeína não apresenta efeitos secundários em controlos, “mas antes previne selectivamente a disfunção no doente”, ou seja, “um estádio de doença leva a adaptações no funcionamento do cérebro de um doente que acarretam um impacto distinto da cafeína”, afirma o docente. No fundo, o efeito da cafeína é diferente em pessoas com patologias do foro neurológico ou psiquiátrico, em relação a pessoas sem patologias.

O grupo liderado pelo docente da FMUC está  a desenvolver paralelamente estudos em doenças do foro neurológico, como as já referidas doença de Alzheimer e doença de Parkinson. Em 2011, concluiu-se a fase inicial, com o estabelecimento de uma prova de princípio. O principal objectivo desta outra linha de investigação é responder “à questão de como é que a cafeína confere neuroprotecção”, avança o cientista, mas também “definir se é possível vir a desenhar fármacos semelhantes à cafeína que tenham maior potência, selectividade e perfil farmacocinético que maximizem o benefício pretendido”.

Para Rodrigo Cunha, a investigação em modelos animais, da utilização da cafeína para minimização do aparecimento de sintomas relacionados com o défice de atenção e hiperactividade, “já produziu resultados visíveis para o público em geral, visto que novo conhecimento foi gerado na forma de um artigo científico”. No entanto, a fase seguinte, de estudos clínicos, fará com que passem cinco a oito anos até que estes resultados tomem uma nova forma, perceptível pelas pessoas. O investigador considera, todavia, que ainda existem muitas questões que necessitam de uma resposta. É importante saber “se a cafeína é igualmente eficiente em homens e mulheres, se o genótipo de cada indivíduo determina uma eficiência diferente da cafeína, se os efeitos da cafeína se desvanecem com o tempo e quando é importante e durante quanto tempo tomar que dose de cafeína”.