BeFree: um robô, tecnologia e ideias de negócio com preocupações sociais

Quarta, 02 de Maio de 2012

por Acabra .Net

Cruzar a tecnologia com a inclusão social: é este o lema dos BeFree, um grupo de cinco amigos e alunos da FCTUC que não se inibiu de arriscar e aproveitar oportunidades. Para desenvolverem a sua ideia contaram com as várias experiências de concursos e até competições internacionais. Por Filipe Furtado e Ana Morais

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A equipa BeFree é um grupo de amigos que trabalha pela inclusão social Foto por D.R.

A vontade de tornar a tecnologia em algo válido e útil para todos é o sentimento que congrega cinco amigos: Ana Figueiredo, Catarina Mendes, Paulo França, Rita Figueiredo e Tiago Caldeira. Cruzando as áreas do saber que estudam na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), como a Antropologia, a Engenharia Eletrotécnica, a Saúde Ambiental ou a Economia e Gestão, este grupo levou as suas aspirações a um patamar mais profissional.

“O nosso projeto BeFree tem como objetivo ajudar pessoas com mobilidade condicionada”, explica Catarina Mendes. É aqui que se prova a ligação da tecnologia à utilidade. A ideia consiste em produzir uma box, “o cérebro” da aplicação, dotado de um sensor de movimento que se insere num gadget. “Pode ser um brinquedo, um comando de televisão” ou pode até permitir receber e enviar mensagens de texto, enumera Rita Figueiredo. As funcionalidades permitidas são ajustadas à utilização pretendida e ao respetivo público-alvo.

O estudo da equipa incide em três segmentos: crianças, jovens e adultos. Escolhendo as crianças com paralisia cerebral como ponto de partida, a equipa começa a desenhar um produto final capaz de integrar o mercado. Um brinquedo com a aplicação permite a estas crianças brincar, como de outra forma não conseguiriam - mesmo com as limitações físicas, a aplicação ajusta-se aos movimentos da criança. A maior preocupação é fornecer “estímulo” aos movimentos de pessoas com mobilidade reduzida. Neste sentido, o grupo estabeleceu uma parceria com a Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, pois “este era o público com maior necessidade e onde podíamos ter melhores resultados”, assegura Rita Figueiredo. Neste momento, o grupo está a ter acompanhamento pela incubação virtual do Instituto Pedro Nunes.

Do ponto de vista técnico, como é que isso se consegue? Na primeira vez em que é utilizado o gadget há “uma calibração do movimento que a criança faz e a box grava esse movimento”, que depois reproduz, como descreve Rita Figueiredo. O processo de adaptação do produto ao utilizador decorre de forma bastante delicada, como conta a estudante, pois “há um contacto com a criança, para ela nos receber bem, porque é sensível”. Posteriormente, a equipa observa qual a melhor parte do corpo para aplicar o gadget, em conjunto com o terapeuta, procedendo a uma análise ergonómica que possibilita escolher um de três suportes: pulseira, luva ou boné.

O processo de adaptação é feito de forma automática e a ambição futura desta equipa é que a aplicação possa ser auto personalizada, de modo a que diferentes movimentos possam “gerar a mesma reação no brinquedo”, explica Tiago Caldeira. Mas esta vontade vai mais longe e espelha o espírito empreendedor que motiva estes amigos. A ideia do grupo passa por possibilitar aos próprios terapeutas e pais uma monitorização do gadget, com o intuito de registar os tempos, velocidade e amplitude dos movimentos da criança.

Metas ganhas

A meta alcançada decorre de um caminho preenchido de etapas que surgiram no momento certo para os jovens. A equipa BeFree juntou-se, pela primeira vez, em novembro de 2011, para o Exception Handled, uma maratona de programação organizada pelo Departamento de Engenharia Informática da FCTUC. Aqui reside a primeira vitória: o grupo conquista a primeira posição com um projeto de “grande potencial de negócio”, como referiu Miguel Goyanes, um dos organizadores do evento. Poucos dias depois, surge um novo ânimo: a conquista do Arrisca C, um concurso de ideias e planos de negócio, que permitiu que crescesse “a motivação de continuar a trabalhar e desenvolver ainda mais”, partilha Tiago Caldeira. Em fevereiro de 2012, o grupo participa no 3 Days Startup (3DS), um evento de cariz internacional que possibilitou algumas respostas à equipa. Ana Figueiredo ilustra este contributo: “como é que conseguimos ajudar pessoas? Como é que conseguimos receitas para produzir e vender? Como vamos conseguir distribuir o produto?”. A estudante responde que foi com a ajuda dos mentores do evento que conseguiram estruturar o projeto. Também a passagem pelo Ineo Weekend, um evento semelhante ao 3DS, reforçou linhas estratégicas a seguir no futuro.

Mas a medalha de ouro aparece nos Estados Unidos da América, no concurso Expert Division, de uma forma caricata. O primeiro objetivo do grupo era participar no Robot Waiter com um robô preparado para percorrer um labirinto, de modo a encontrar um prato e levá-lo a uma pessoa com mobilidade reduzida. No entanto, nem tudo corre como planeado. As equipas concorrentes já conheciam o formato deste tipo de prova e concentravam-se na resolução de problemas de engenharia. Os BeFree prepararam-se apenas um dia antes da prova e apesar de nos ensaios o robô ter correspondido ao teste, na prova final ficou aquém. Todavia, a vitória emerge com um segundo robô, desta vez “bombeiro”. O desafio passava por percorrer um labirinto e detetar pontos de incêndio, simulado através de pequenas velas. É aqui que a equipa portuguesa ganha visibilidade entre mais de 100 grupos de vários pontos do mundo.

O triunfo não se esgota no ouro, visto que esta viagem proporcionou à equipa possíveis novos contactos comerciais. “A grande vantagem desta participação foi habituar-nos à versatilidade”, explica Tiago Caldeira – “o facto de sermos uma equipa multidisciplinar permitiu encontrar as forças e os recursos para resolver problemas”. O estudante comenta que ao contrário das outras equipas, com preocupações competitivas, o BeFree “é apenas um conjunto de amigos que tem um projeto e uma ideologia”.

Ambições futuras

“Somos cinco e, às vezes, uma das dificuldades é arranjar tempo para estarmos todos reunidos”, desabafa Catarina Mendes. Porém, o ideal de tornar a tecnologia uma forma de inclusão social permanece e é o que alimenta a vontade de trabalhar mais. A equipa é unânime quando fala de momentos de desmotivação após a entrada no 3DS, considerando as ideias “máquinas de fazer dinheiro” e apenas isso - uma forma de pensar que destoava das ambições do grupo. A equipa defende que os preços dos produtos para pessoas com necessidades especiais não devem ser elevados, apenas “porque não há concorrência”, como aponta Tiago Caldeira.

Parafraseando António Gedeão, Tiago Caldeira deseja que o sonho comande a vida. “Quem sabe se daqui a dez anos será uma multinacional grande com muitos mais funcionários” ou, como o estudante ambiciona, até com uma norma europeia que obrigue estes equipamentos a possuírem uma ficha BeFree.