Viviane Reding, vice-presidente da Comissão Europeia

“As pessoas devem saber que as coisas estão a ir na direção certa”

Terça, 05 de Março de 2013

por Acabra .Net

De visita a Portugal para um debate com os cidadãos, a vice-presidente da Comissão Europeia, Viviane Reding, traz uma mensagem de esperança para os próximos tempos e fala de uma nova maneira de fazer política, que fortaleça a ligação existente entre o cidadão e o indivíduo político. Em entrevista ao Jornal A Cabra, a também comissária da Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania comenta a importância da educação e do Ensino Superior no crescimento económico e da sua ligação ao setor empresarial. Por Camilo Soldado e João Valadão

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"Será preciso chegarmos a 2014 para que os portugueses sintam realmente a sua vida melhorar", disse Reding Foto por Daniel Alves da Silva

No relatório “Education and Training Monitor 2012”, é dito que a educação é parte da solução para ultrapassar o impacto da crise, mas apenas se o investimento for eficiente. Em Portugal, as instituições de Ensino Superior (ES) têm sofrido sucessivos cortes no financiamento. O governo português está a por em risco a estrutura educacional do país?

Portugal tem universidades muito boas e a de Coimbra é um exemplo. Mas também tem uma enorme crise e toda a gente está a sofrer. Nós estamos a fazer tudo para que este período não dure muito tempo e estamos convencidos que uma boa formação é a base para que se possam construir as suas estruturas económicas de forma independente.

Mas, de acordo com este relatório, apenas Portugal e a Roménia baixaram o investimento no ES.

Não conheço esse relatório, mas sei que vários países estão sobre pressão económica. O sistema educacional está também a sofrer. Sempre disse que, se não houver dinheiro, deve-se sempre investir dinheiro em três coisas: educação, educação e educação. A educação é um investimento no futuro e, se não fizermos esse investimento, temos um verdadeiro problema.

Nos objetivos da estratégia Europa 2020, pretende-se que a percentagem de indivíduos entre os 30 e os 34 anos com formação superior suba para 40. Em 2001, em Portugal, essa percentagem chegava apenas aos 26,1, sendo que o abandono escolar no ES tem subido devido aos problemas financeiros das famílias. Ainda é realista apontar para esse número?

É uma meta e, quaisquer que sejam os problemas, nunca se devem esquecer esses objetivos. Talvez não atinjam as metas de uma vez, mas isso não quer dizer que não seja para onde Portugal deve ir. Registamos muitos abandonos no nosso sistema educacional. Isto é muito prejudicial. Há muitos elementos que os ministros da Educação têm que ver para que sejam alcançados melhores resultados, porque isso será a base para o futuro desenvolvimento do país.

Na Europa, o desemprego jovem atinge uma taxa de 23 por cento. Ouvimos políticos a falar sobre a urgência e a necessidade de resolver esta questão mas, especificamente, o que é que não tem sido feito convenientemente?

É extraordinariamente negativo para as pessoas, para a sociedade e para a economia que as pessoas comecem a sua vida adulta sem serem precisas. Os jovens devem sentir-se necessários, valiosos, cativados. No fundo, quem cria empregos não é a legislação mas sim as indústrias, as companhias. Temos que ajudar essas companhias a ter capacidade de criar postos de trabalho. No último ano, a comissão fez um projeto piloto em oito estados membros, inclusive em Portugal, partindo de fundos que não tinham sido utilizados, para investir 7,5 biliões de euros e criar 460 600 postos de trabalho. O Conselho Europeu tomou a decisão de criar um programa específico, o que dá uma garantia aos jovens. Um jovem com menos de 25 anos que esteja por um mínimo de quatro meses desempregado e que não esteja a estudar receberá educação suplementar, formação ou ocupação, algo para fazer.

Mas esses programas funcionam?

O programa piloto tem funcionado desde o ano passado. Criou 460 000 postos de trabalho em oito países. O outro foi aprovado e deve, no decurso deste ano, ser posto em prática.

Falando em indústria, pensa que o futuro dos jovens passa por uma maior conexão entre as universidades e as empresas?

Julgo que a Universidade de Coimbra mostrou que criar uma incubadora é o modo correto de proceder. Isso significa que o conhecimento que é adquirido na universidade pode ser posto em prática na criação de uma ‘start-up’ e dar uma oportunidade aos jovens de utilizar esse conhecimento e talento. Há muitas universidades que têm criado esta capacidade de desenvolver ‘start-ups’, dando-lhes uma casa para que possam fazer experiências – talvez funcione, talvez não – mas é muito importante esta ligação entre universidade e capacidade de criação.

No Porto disse que “as pessoas neste país sentem que as coisas estão a ir na direção certa”. Mesmo com o regresso aos mercados, se a economia não cresce, com a recessão, as taxas de desemprego estão mais altas que nunca, como é suposto que as pessoas sintam que as “coisas estão a ir na direção certa”?

As pessoas neste país estão a sofrer, é verdade. Mas devem saber que as coisas estão a ir realmente na direção certa. O simples facto de que Portugal tenha voltado aos mercados significa que já não depende mais da solidariedade para receber fundos, e conquistou a confiança dos investidores, é importante. Nos próximos meses, os ministros das Finanças do Eurogrupo terão uma sessão especial dedicada a Portugal e à Irlanda, para analisar o panorama e para que possam sair dos programas. Os investimentos ainda não estão a regressar tanto ao país, mas as exportações estão a crescer. Será preciso chegarmos a 2014 para que os portugueses sintam realmente a sua vida a melhorar.

Passaram quase cinco anos desde o início da crise. Mesmo com os programas de austeridade implementados em vários países, os governos e a União Europeia parecem falhar em superar os problemas financeiros. De que forma é que estes encontros com os cidadãos podem ajudar a arranjar uma solução?

Não é para arranjar uma solução que estou a sentar-me com os cidadãos, mas para os ouvir. Os políticos normalmente fazem um grande discurso e vão-se embora. É muito importante o diálogo entre o político e o cidadão. É importante saber no que acreditam os cidadãos, o que é que eles pensam, quais são os seus sonhos para o futuro. Também é importante que os jovens falam sobre as suas aspirações.