Ainda há futuro para os jornalistas. A “revolução” pode estar do lado deles
Terça, 18 de Dezembro de 2012
por Acabra .Net
Cebrián não é uma contradição, mas sem dúvida vive num paradoxo. Entre o papel de administrador do grupo PRISA e a nostalgia de jornalista, o fundador do ‘El País’ passou a notícia, com o despedimento de 129 trabalhadores do jornal que é seu. Em Coimbra, no Seminário “Jornalismo e Comunicação”, perdeu-se entre a crise da imprensa e um futuro que já se começou a construir. Por João Gaspar e João Miranda
No livro ‘Cartas a um Jovem Jornalista’, convence os jovens aprendizes do jornalismo a não desistir da profissão. Os últimos números apontado pela Fedaración de Asociaciones de Periodistas de España indicam que 7900 jornalistas perderam o emprego, em Espanha, desde 2008. Escreveria hoje o livro da mesma forma?
Eu creio que sim. Em primeiro lugar é muito grave o que se está a passar em Espanha. Mas o que se está a passar é uma crise global. Independentemente da crise financeira e económica, há uma crise da nossa profissão induzida pela introdução das novas tecnologias, que estão a alterar por completo os modelos de negócio, os modelos da empresa e o comportamento dos clientes. Os jovens compram cada vez menos jornais, mas não quer dizer que não estejam menos informados, informam-se pela rede. A publicidade também está a castigar a imprensa escrita não só pela crise económica, mas também por encontrarem outras plataformas para anunciar. Os jornais, tal como os conhecemos, vão desaparecer, há quem pensa que vão desaparecer de todo, eu não gostaria. Acredito que a imprensa continua a ter um papel a desempenhar, e que acima de tudo o jornalismo na internet é muito diferente.
Já não me lembro dele… [risos] Mas suponho que não. Continuo a acreditar em jornalistas e continuo a acreditar que haverá sempre jornalistas...
Mas em menos quantidade?
Não necessariamente em menos quantidade… Há um tema que me afeta como jornalista, que é o ego. Nós, os jornalistas, temos muito ego. E às vezes é demasiado. E creio que vai haver menos ego nos jornalistas. O ego é uma laca para os jornalistas e a humildade uma condição necessária. Não acho que vá haver menos quantidade, mas a profissão vai mudar.
Não sai afetada se o diretor tiver acertado com a seleção da equipa que fez. O problema é que necessitamos de jornalistas com perfis novos. O mundo das plataformas digitais exige-nos fazer um jornal global, dirigido a toda a comunidade hispânica. E também pensamos em fazer uma edição em português no Brasil. Portanto, a partir daí, muda o sistema de trabalho e a sua organização, mas não deve afetar a qualidade, pelo contrário, deveria melhorar…
Se o diretor decidiu prescindir dos jornalistas, certamente não pensou que eram alguns dos melhores jornalistas de Espanha. O diretor decidiu escolher com que jornalistas fazer o seu jornal, se a qualidade sairá afetada, isso vão decidir os leitores. E isso iremos ver nos próximos meses.
Mas nesse caso a qualidade obviamente saiu afetada. Eu sou jornalista de imprensa e a base dos jornais são os jornalistas. Um jornal pode ter os melhores gerentes, os melhores administradores, os melhores comerciais e publicitários, mas se não tem uma boa equipa de jornalistas, não tem qualidade.
Não. Há uma diminuição de leitores no papel, porque há cada vez menos leitores a comprar o jornal. Os diretores e os redatores devem ter uma visão mais global do que é um jornal e da própria função do jornalista. Há que mudar a forma de comunicar com os leitores na internet, e para isto são necessários perfis profissionais e organizações diferentes. Por outro lado, diminui a tiragem, porque desce a publicidade, e isso afeta a profissão. É inevitável.
Outras empresas do nosso grupo já tinham levado com reduções de pessoal. O ‘El País’ foi dos últimos. Por razões óbvias, porque para mim o 'El País' não é apenas uma empresa.
Não. Pagávamos bons salários, e tínhamos uma melhor estrutura que concorrentes nossos porque podíamos pagar. O jornal não viveu acima das suas possibilidades, viveria no futuro se não fizéssemos o que estamos a fazer.
Um dia dizem que ganho oito, outro dia 12 milhões, já nem sei o que ganho. E pergunto: onde está todo esse dinheiro?
Sim. Não ganho 13 milhões de euros. O que ganho foi aprovado pela assembleia de acionistas.
Honestamente, a única coisa que é a verdade é o que está publicado na internet [site da CMVM espanhola].
Não. Já utilizei o avião privado. Este ano creio que só usei uma vez. Em fevereiro, para um ato com Sarkozy, tive que ir a Paris. Foram 12 mil euros.
Os administradores dão o exemplo, eu baixei 7 por cento do meu bónus deste ano. Claro que temos de dar o exemplo. Sabem quanto oferecemos de indemnizações? 180 mil euros líquidos, o que equivale a 350 mil euros brutos. Digam a qualquer jornalista português que, por despedi-lo, lhe vão dar 350 mil euros brutos...
Eu não estava nas assembleias. Eu não acredito que os jornais sejam dirigidos por essas assembleias e não vou permitir nunca que o ‘El País’ seja dirigido por essas assembleias. O ‘El País’ é uma empresa normal, não é uma cooperativa. Os donos do ‘El País’ são os acionistas do PRISA, não são os jornalistas do ‘El País’, nem os seus trabalhadores. Os jornalistas podem pedir a demissão do diretor. Mas o diretor é nomeado pelo conselho de administração.
Outra questão levantada na assembleia foi a da ameaça do diretor, Javier Moreno, de que os jornalistas que não assinassem no dia da greve não poderiam voltar a assinar.
Não acreditamos que uma greve de empresa [layoff] seja um direito dos jornalistas. O ‘El País’ é um dos jornais que mais tem estabelecidos os direitos dos seus jornalistas. O que dizemos é que o jornalista deve assinar, porque deve responsabilizar-se.
Eu acredito que os correspondentes estrangeiros, e disse-lhes isso, naturalmente têm direito a fazer greve como qualquer trabalhador. Mas o correspondente estrangeiro, não só é um trabalhador que não tem horário laboral, tem um salário normalmente o dobro ou o triplo de um redator e, para além disso, é um cargo de confiança da empresa, um pouco como o representante da empresa. E acho que é uma falta de respeito aos leitores não assinar uma crónica ou reportagem. Mas não me consta que o diretor tenha dito isso.
Mas houve essa acusação de correspondentes estrangeiros.
Só dois jornais, dos mais de 100 que fizeram eco da situação do ‘El País’, que foram o ‘New York Times’ e o ‘Frankfurter Allgemeine Zeitung’, pediram a opinião do diretor e da empresa. A falta de rigor jornalístico não é um problema só em alguns jornais, é um mal endémico.
É um papel definitivo. A imprensa, se não está à beira de desaparecer, está à beira de transformar-se radicalmente. E eu compreendo que os jornalistas, que têm medo de perder o seu trabalho ou têm medo que o seu trabalho se transforme de tal maneira que exija competências que não possuem, lutem pelos seus direitos, pelos seus interesses, façam greves. Não greve de empresa, a greve de empresa não é uma greve, não é um direito reconhecido. Compreendo que protestem contra a empresa. Compreendo que me identifiquem, enquanto presidente, como estando no outro lado. O que não compreendo é que prejudiquem o próprio jornal. O jornal é o seu futuro, não é o meu.
Não sabemos qual é o modelo de negócio no futuro. Informação gratuita vai haver muita. Já havia antes da internet. A rádio faz informação e é gratuita. Mas o que quero dizer é que ninguém sabe como isto se vai organizar. E vamos padecer durante alguns anos de crises como a de que estamos a padecer.
Sim.







