“Estamos aqui, todos juntos, independentemente se de esquerda ou direita. Não tem a ver com divisões políticas mas uma completa mudança de governo e das elites políticas. O nosso protesto é contra toda a política das classes dominantes”, dizia um membro da manifestação do dia 30 de novembro, nas praças Kongresni e Republika, no centro da capital Eslovena, Liubliana. Milhares de pessoas juntaram-se nos protestos anti governo, em véspera de eleições, para mostrar o seu descontentamento face aos cortes e reformas do governo designados e para evitar o resgate internacional. Manifestantes atiravam petardos e pedras da calçada. A polícia bloqueava a passagem em frente ao Parlamento no sentido de evitar que se repetisse a violência dos protestos em Maribor, onde cerca de dez mil pessoas protestaram pela resignação do perfeito Franc Klanger, acusado de corrupção.
“O que os eslovenos querem é ter mais oportunidades para participarem no processo de discussão política e voto. Não apenas de quatro em quatro anos, mas permanentemente”, afirma a professora de Antropologia na Universidade de Liubliana e colunista na revista ONA, Vesna Godina. Os protestos devem-se à ambição por um sistema que não deixe apenas nas mãos dos partidos as decisões políticas, acrescenta ainda a docente.
De um ponto de vista sociológico, é na própria estrutura do estado democrático que encontra o problema. A Eslovénia, nascida do rompimento de uma união comunista, alimenta a génese do socialismo: “os indecisos normalmente preferem partidos de esquerda que se enquadram na tradicional cultura política eslovena e que, de um ponto de vista prático, provam ao longo da história ser mais sociais e economicamente funcionais”, explica a professora do Liubliana. Ainda assim, salienta que este ‘standard’ moral não tem sido respeitado e os eslovenos não veem com bons olhos nenhum dos partidos políticos.
“Não sei se algum destes partidos é orientado à esquerda em termos de interesses”, comenta, referindo-se aos constantes casos de corrupção observados entre os membros do governo nacional e local. Para citar mais um deles: Zoran Janković, prefeito de Liubliana e ex-presidente da Mercator (a maior cadeia de retalho do sudeste europeu), em outubro de 2010, referia numa entrevista ao jornal diário ‘Večernji list’ que a corrupção não constitui um problema sério na Eslovénia. Contudo, foi detido em setembro deste ano, juntamente com os seus dois filhos, por suspeita de participação num dos maiores casos de corrupção no país.
Sociais democratas (SD) e democratas (SDS) têm-se sucedido nos últimos dez anos no Governo. Janez Janša foi primeiro-ministro entre 2004 e 2008 e eleito pela segunda vez em 2011. Borut Pahor foi-o entre 2008 e 2011 quando o seu partido ficou em primeiro lugar na coligação. Ao ter vencido as eleições para Presidente da Eslovénia, Pahor tornou-se no mais novo a exercer esse cargo e o único a ter passado pelas três posições presidenciais no sistema político esloveno: presidente da assembleia, primeiro-ministro e presidente da república. Quando os resultados foram anunciados afirmou: “este é apenas o início de algo novo, uma nova esperança, um novo período”.
Gasper Zavrsnik é um jovem jornalista. Explica que as pessoas não querem aceitar que, enquanto são forçadas à austeridade, as elites se apropriem de dinheiro público. "A Eslovénia, em comparação com a Grécia, Portugal e Espanha não foi tão afectada pela recessão até meio de 2012", refere, explicando que a população está progressivamente a revoltar-se. "O Governo está a implementar ideologia neoliberal, que nunca resultou na Eslovénia. As divisões entre esquerda e direita são muito polarizadas na Eslovénia. O maior problema é a falta de consenso entre a oposição e a coligação”. Ainda assim, o jornalista acredita que os protestos podem dar frutos apesar de ser uma "batalha de longo termo" que pressupõe resistência. Dá o exemplo dos protestos em Maribor, que atingiram o seu objetivo - o prefeito demitiu-se e os estudantes da Universidade de Liubliana conseguiram que os cortes na educação fossem evitados.
A influência por parte de outros países em recessão na Europa é crucial, sendo que a Eslovénia apenas agora se está a juntar à onda de protestos. Para além da crise económica ser de bem menor gravidade: “Nós eslovenos podemos ver onde a austeridade neoliberal e as reformas desreguladas estão a levar-nos. Vemos isso por vossa causa [Grécia, Portugal, Espanha] que põem em contexto todas essas mudanças devastadoras”, reflete Gasper Zavrsnik.
Vesna Godina acredita que “os eslovenos ficariam satisfeitos se os problemas fossem resolvidos ao nível do sistema político local”, acabando assim com as manifestações que juntam essencialmente pessoas que querem ver estabilizada a sua situação económica e acabar com a elite política. Problemas concretos que parecem ignorados pela política nacional. “Estas demonstrações mostram que este tipo de soluções capitalistas já não são adequadas”, garante.