A casca de ovo pode ser um aditivo de solos

Terça, 12 de Junho de 2012

por Acabra .Net

A investigação do DEQ quer avaliar as quantidades mais eficientes de casca de ovo no processo de compostagem para utilizar em solo agrícola. Por Filipe Furtado

Valorizar a casca de ovo é um dos principais objetivos de uma das investigações a decorrer no Departamento de Engenharia Química (DEQ) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). E porquê valorizar a casca de ovo? “É um material que em termos legais não pode ser colocado em aterro sanitário, por ser um sub-produto animal”, explica a engenheira química que lidera a investigação, Margarida Quina.

O trabalho daquele departamento concentra-se em arranjar um destino para os resíduos produzidos pela indústria de ovoprodutos, onde são utilizados milhares de ovos diariamente. Uma das soluções encontrada foi recorrer ao processo de compostagem para introduzir a casca de ovo no solo. “No fundo é um dois em um: resolve-se um problema industrial e reintroduz-se matéria orgânica novamente no solo”, que funciona como correctivo de solos.

A compostagem é o processo biológico pelo qual se obtém um produto humificado, sem contaminação microbiológica relevante, alternativo à utilização de fertilizantes convencionais. Neste caso, os investigadores seleccionaram, além da casca de ovo, casca de batata, relva e casca de arroz para criar o correctivo de solos.

A casca de ovo é eficaz contra metais pesados presentes no solo. A casca de batata, como vem da terra, não apresenta nenhum sinal de maior atenção na mistura, mas a relva é uma necessidade química, assim como a casca de arroz que permite que a estrutura seja menos compacta, para fazer passar o ar.

O trabalho passa por monitorizações laboratoriais ao longo de meses, de maneira a corrigir alguns problemas nos solos agrícolas. Neste momento, os investigadores estão a utilizar solo contaminado com chumbo, proveniente de uma zona de exploração mineira da Região Centro, e analisar se a casca de ovo tem uma contribuição positiva.

Analisar dosagens

A investigadora refere que a “área da compostagem não é um processo propriamente novo”. A compostagem funciona da mesma forma que a natureza, mas de uma forma optimizada. É uma técnica “muito versátil”, partindo de alguns elementos base. Tanto a nível industrial, como a nível doméstico, a característica indispensável para a compostagem resultar é a existência de matéria orgânica biodegradável em quantidades suficientes. Os investigadores analisam as reacções bioquímicas em reatores laboratoriais, através de variáveis como a temperatura, a concentração de oxigénio, humidade, e a matéria orgânica, entre outras. Depois é avaliada a composição química, a estabilidade e fitotoxicidade dos compostos.

Aqui reside a grande interrogação da pesquisa, isto é, perceber as quantidades máximas de materiais que se pode incorporar. Margarida Quina relata que até 30, 40 ou até 50 por cento de casca de ovo é possível integrar na mistura, mas depois disso “começam a surgir problemas colaterais”. A investigadora garante que a casca de ovo pode ser usada, pois as análises clínicas já o confirmam, todavia, o que realmente interessa é a “mais-valia” no produto final. É necessário compreender se traz mais vantagens do que outras combinações já utilizadas, ou até quanto tempo resulta até o solo necessitar de novos corretivos.

“Se o projecto tiver pernas para andar tem que se envolver outros parceiros”, como é o caso da Escola Superior Agrária, visto que depois dos testes em ambiente laboratorial é preciso testar a mistura em campos agrícolas que o DEG não possui, finaliza Margarida Quina.